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HAMILTON KARATE E A FESTA DA PRECARIEDADE.

HAMILTON KARATE E A FESTA DA PRECARIEDADE. (Entendedores entenderão) Meu nome é: Alexandre Magalhães, tenho 53 anos e ainda estou buscando algo que nem mesmo sei o que é mas acho que sempre foi assim, na minha juventude fui proprietário de uma academia de musculação num sobrado na esquina da Rua Américo Brasiliense com Estrada do Portela no Bairro de Madureira coração do subúrbio carioca. Construímos tudo com nossas próprias mãos, pegávamos o trem para ir num ferro velho em Piedade onde o preço dos canos eram menores e voltávamos no mesmo trem em direção a Marechal Hermes onde um amigo cortava e soldava os pedaços, transformando a sucata em “aparelhos” que eram pintados e estofados por nós mesmos e mais uma vez transportados no trem em direção a Madureira, tudo no ombro nas pernas e nas costas, mas eu era jovem e era divertido. Nossa academia vivia lotada, era toda uma sorte de gente, gente simples, humilde e rude, mas que gostava de puxar um ferro e ferro era o que não faltava. Além da musculação tinha as aulas de Karatê onde o Hamilton era o protagonista, mas como o título da crônica sugere, nada era tão simples e para que as aulas fossem dadas na única sala que tínhamos, todos os “aparelhos” barras e toneladas de pesos tinham que ser transferidos para uma varanda anexa e depois voltavam para o seu local de origem. Era punk... Foi nessa época que virei pai e a necessidade de “segurança” me fez abandonar a carreira de fisiculturista para virar metalúrgico, trabalhei em algumas fabricas de molas até me “estabelecer” na mais precária de todas no Bairro de Coelho Neto aos pés do Morro do Juramento. Como a metalúrgica era extremamente pobre nossa criatividade e inventividade era imensa e as idas e vindas ao ferro velho continuavam constantes, nessa época aprendi a operar todo o tipo de máquinas, torno, fresa, prensas de 30 toneladas, aprendi a soldar e a enrolar a frio molas de aço de meia polegada - Era triste e foi aí que comecei a perceber que minha vida não tinha dado certo, a precariedade era tanta que em muitas vezes esquentávamos a marmita numa fogueira e fazíamos uma mórbida competição onde ganhava quem tinha a marmita mais pobre, me lembro de uma ocasião onde o Gerson foi o “campeão” com quinze dias seguidos levando na marmita apenas arroz com um único pé de galinha cozido. O tempo passa como tem de ser, e os meus caminhos um dia cruzam com um grupo de montanhistas que me fizeram o convite de conhecer um clube, eles me deram um guardanapo de bar onde estava escrito assim: Centro Excursionista Guanabara, Rua Washington Luiz n.9 Cobertura – Apareça. Apareci e a partir daquele dia a natureza passou a me guiar, nunca havia me sentido assim antes, um sentimento de felicidade e pertencimento deram um novo sentido a minha vida, naquele clube vivi uma das melhores fases da minha vida adulta, ali tive o imenso prazer de conhecer pessoas tais como: Seblem e Guiderlam Mantovani, Eliza Goldman, Marta Zampieri, Manoel Rosado Junior, Ronaldo Cota de Melo, Luciano Peres e tempos depois Boris, Play, Rodolfo, Carlos Xuxu e tantos outros que de diversas formas diferentes me influenciaram e me transformaram no que sou. Hoje todos os dias que me deparo com as dificuldades e as precariedades do Evolução eu me lembro daquela academia e daquele rapaz sonhando na linha do trem e percebo que basicamente pouca coisa mudou, ainda carrego comigo um medo e uma culpa ancestral e ao mesmo tempo uma vontade imensa de acertar e de me livrar de vez dos assombros do fantasma do Hamilton Karatê. (Publicada em 07/06/2016)

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